15 anos, 5 universidades, 8 cidades, 4 países e 16 casas depois, Rio em janeiro.
Rio de sambas e de choro. Daquele abraço que aperta até doer.
Lugar onde o tudo e o nada podem acontecer (e acontecem!) na mesma intensidade.
Talvez por isso é que só conheço dois tipos de carioca: os apaixonados e os desencantados.
Os apaixonados repetem que amam esse lugar e que não o trocariam por nada nesse mundo.
Afinal, é o Rio de Mangueira, de Cartola e de Teresa Cristina. Mar verde e rosa que arrasta multidões anunciando que esperançar é possível.
Rio de maravilhas, do Flamengo, da Pedra Branca e da Pedra do Sal.
Rio, mar, cachoeira.
Já os desencantados não veem a hora de fugir daqui.
Como ser feliz no Rio do Complexo de Israel, de familícias e de violência? Como não sucumbir em um Rio que pode levar sua vida a qualquer momento, em qualquer rua, em qualquer lugar?
...
E quem sou eu na fila do pão-de-açúcar?
Não sei.
Sei que odeio barulho, sujeira e multidão, e que tenho alergia (e atraio!) mosquito.
Gosto de perambular pelas ruas das cidades com minha correntinha de ouro comprada no Shopping dos Peixinhos em Madureira – e gosto de fazer isso a pé ou de bicicleta porque enjoo em qualquer outro meio de transporte.
Mas me pego desencantada com o cansaço dos dias absurdamente quentes, dos trajetos longos e das pequenas e constantes ações movidas pelo medo.
Tira o cordão. Carrega a bolsa na frente do corpo. Leva o celular, mas só o antigo. Liga pra avisar que chegou bem. Coloca esse guarda-chuva bonito pra secar dentro de casa porque pode chamar a atenção.
Apesar de desencantada com a fumaça cinza das motos conduzidas sem capacete e dos carros conduzidos sem cinto de segurança, não canso de me apaixonar pelo azul desse céu e pelo colorido dos chãos de caquinho.
Sei que amo samba, carnaval e açaí com paçoca. Amo o mar e o MAR.
Rio de canto a canto ouvindo o pretoguês formando frases que só uma alma carioca pode pronunciar.
Com todo respeito. Fiquei de xereca. Coloquei uma bala no bolso da enfermeira para ela cuidar da minha mãe direitinho. Mermão, que calor é esse! Deus abençoe mais um dia de correria.
Apaixonada pelas f(r)estas. Desencantada com a banalização da vida.
Apaixonada e desencantada com o Rio do Valongo – símbolo máximo da complexidade de um lugar de cujas ruas jorram sangue, suor e cerveja gelada. Que resiste, re-existe e se reinventa nas rodas de samba, nas escolas, no trabalho, nas mesmas ruas.
O que sei é que voltei.
Voltei ao Rio que engole corpos e sonhos, e cospe fantasias de um tempo bom. Medo e esperança na mesma proporção.
Voltei ao “Rio que leva as gentes, ruas que tudo dragam” ¹.
Aqui não é difícil (mas também não é fácil!) entender que é possível ser apaixonada e desencantada ao mesmo tempo.
Com paixão desencantada e desencantamento apaixonado, o Rio não tem espaço para dicotomias, nem para meio-termo. É tudo e nada.
![]() |
| A mais bela paisagem do mundo, e também a mais triste. |
Concreto e fluidez. Beleza e pavor. Deslumbre e estranhamento. Caos e calmaria.
História e esquecimento.
Choro. Rio.
Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse Rio passar? ²
--
¹ Enredo Grande Rio 2022, Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinicius Natal.
² Samba-enredo Portela 2017, composição de Samir Trindade, Elson Ramires, Neizinho do Cavaco, Paulo Lopita 77, Beto Rocha, Girão e J Sales.

Que lindo!!! ❤️
ResponderExcluirObrigada pela leitura, Diogo!! 🥰
Excluir❤️🔥
ResponderExcluirComo canta a canção dO Rappa: faltou luz mas era dia
Perfeita síntese! Obrigada pela leitura atenta 🤍
ExcluirBelo texto!! Sua sensibilidade com as palavras traduzem aquilo que sentimos e não sabemos explicar! Obrigada pelas boas reflexões de sempre! =)
ResponderExcluirEu que agradeço pela leitura (de sempre?)! Um abraço 🌻💛
Excluir