Uma carta para Paulo Freire

Brasil, 19 de setembro de 2021.

Querido Professor Paulo,
como o senhor está?

Espero que esteja bem!

Wilson das Neves dizia que só morre quem não presta. Então acredito que vocês estejam vivos, bem e juntos em algum lugar...

Lamento começar este diálogo assim, mas devo dizer que, ao contrário daí, as coisas por aqui não vão muito bem... Até parecia que íamos avançar, sabe? Mas, quando nos demos conta, tudo começou a desmoronar (o senhor já ouviu falar de um tal de Sérgio Moro por aí?).

Como sei que já faz um tempo que o senhor não recebe notícias daqui, vou começar a lhe contar a história de quase 30 anos atrás, quando nasci. Nessa época o senhor ainda estava por essas terras, mas é de onde consigo começar a contar a minha história e a de muitas e muitos jovens que, mesmo em tempos de desesperança, têm a sina de esperançar.

Eu nasci no subúrbio carioca no Carnaval de 1992. A folia da época testemunhava também o nascimento de Jéssicas, Felipes, Alines e Victor Hugos trazendo a esperança de crescerem junto com a nossa igualmente recém-nascida democracia, que o senhor viu nascer de perto.

Quando estávamos ainda aprendendo a ler e a escrever as palavras, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 ampliava os direitos educacionais. Seu papel foi fundamental nisso! Lamento que não tenha ficado mais um pouco por aqui para presenciar as transformações sociais que a Lei causou...

Alguns anos depois de sua partida, o Movimento Negro lutava por Ações Afirmativas e firmava a delegação brasileira como a maior participante na III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, África do Sul, no ano de 2001. Naquele momento, o país começava a se preparar para a maior revolução educacional do século (desculpe ser repetitiva, mas que pena que o senhor não estava aqui pra ver!).

Em 2003, entrávamos na pré-adolescência contemplando o início não somente de uma importante fase de aprendizado em nossas vidas, mas também de uma nova era no país. Presenciamos, ainda que tão jovens, um homem trabalhador (como nossas mães, nossos pais, como o senhor!) chegar à presidência. A primeira lei que ele assinou foi pela educação: a Lei 10.639, que tornava obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas.

Na hora de iniciarmos o Ensino Médio, pensávamos em qual escola técnica, dentre as 214 criadas só no governo de seu amigo e companheiro de longa data Lula, iríamos finalizar nossa Educação Básica já com nosso suado (e necessário, afinal somos de famílias de trabalhadoras e trabalhadores) diploma de Educação Profissionalizante.

Em 2007, já no Ensino Médio, esse mesmo presidente instituía uma mudança radical através do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). O senhor precisava ver! Lá na escola técnica, conversas sobre que cursos de graduação queríamos fazer e em que universidades queríamos estudar eram comuns – mesmo que não houvesse ninguém em nossas famílias que tivesse passado por isso.

Por sorte, em 2009, encerrávamos essa etapa com outra boa novidade: o novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No ano seguinte, já entrava em vigor o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que possibilitava nosso acesso a universidades federais de todo o Brasil.

O senhor chegou a conhecer a Dilma Roussef? Em 2010 que ela foi eleita. A primeira presidenta da história do nosso país! Foi também a primeira vez que votei para o cargo da presidência. Nessa época, por imposição da minha família, eu ainda frequentava a igreja evangélica. O senhor acredita que o pastor pediu pra gente não votar na Dilma? Demorei anos para entender o porquê... (E, sim, desobedeci. Sempre fui rebelde contra o sistema injusto, como o senhor). 

Mas a Dilma conhecia o senhor muito bem! Tanto que, em 2012, ela sancionou uma lei fazendo o senhor se tornar oficialmente o Patrono da Educação Brasileira ♥ Quem propôs isso foi sua também amiga e companheira de longa data Luiza Erundina.

Fonte: Revista Fórum.

Nesse mesmo ano, depois de décadas de lutas e reivindicações do Movimento Negro Brasileiro, a presidenta Dilma sancionava sua maior revolução: a reserva de vagas através de cotas sociorraciais em universidades, institutos e centros federais. 

Entramos na Universidade. Escolhi ser professora, como o senhor! Professora de Matemática.

A Universidade parecia tão distante e impossível, mas nós entramos. De algum modo, ela continuou distante, mas nós continuamos empurrando com muito (muito!) esforço até irmos nos aproximando, nos encaixando, e, aos poucos, modificando aquele espaço. 

Fizemos cursos de língua estrangeira, participamos de eventos científicos, aprendemos e incorporamos os códigos daquele lugar. Algumas e alguns de nós conseguiram até fazer intercâmbio e fomos as primeiras pessoas de nossas famílias a saírem do país ou mesmo a entrar em um avião! 

Quem diria? Nossos pais não tinham sequer completado o Ensino Médio e nós estávamos morando em um lugar melhor, às vezes em outra cidade, não mais na favela onde eu nasci  (o senhor lembra desse funk? É da sua época, não é? Eu botei para tocar na minha entrada na formatura!). 

E nos deslocamos para estudar! Para aprender, para continuar a fazer revolução através da educação que foi negada por tanto tempo a tantas e tantos de nós e que o senhor lutou tanto para que fosse mesmo libertadora.

As políticas de permanência possibilitaram que muitas e muitos de nós continuassem. Em outros casos, precisávamos conciliar as horas de estudo com as horas de trabalho. Mas continuamos! Pois sabíamos que aquela era nossa chance de mudar as nossas realidades e a realidade do nosso país, e sabíamos também que poderia não haver outra chance como aquela.

Aos trancos, barrancos, dores e delícias, concluímos.

A esperança de continuar nossa revolução educacional nos impulsionou a estudar ainda mais. 

Entramos na Pós-Graduação. 

Nesse momento, as coisas já não estavam tão boas para nós – boa parte ingressou no Mestrado já após o golpe de 2016. Essa parte é chata de contar, mas a Dilma sofreu um golpe institucional (e machista!) e foi deposta da presidência. Boa parte do esquema foi sustentado pelo tal do Sérgio Moro, que eu comentei lá no início da carta. Foi tanta sujeira que nem cabe nessas páginas...

No entanto, seguimos. Aqui já não tínhamos certeza se teríamos bolsas de Pós-Graduação e, portanto, condições de nos dedicarmos integralmente às pesquisas, mas seguimos.

Nos tornamos mestras e mestres! Dá para acreditar? Temos formação acadêmica de alto nível. A presença de uma maior diversidade de corpos e epistemologias no ambiente universitário nos proporcionou também uma formação política. Lemos os artigos científicos e a conjuntura política, as palavras e o mundo.

Naquele momento, pensamos: vamos seguir mais um pouco?! Doutorado, quem sabe? Algumas e alguns de nós já conseguiram até ingressar como docentes em Universidades e continuaram a revolução por dentro! Vamos sim. Ainda temos esperança. Vamos concluir o Doutorado, fazer um Pós-Doutorado (ou mais de um!), ingressar no Magistério Superior em uma Universidade Pública como a que ajudou a nos formar.

. . .

Mas, em 2018, veio o golpe violento que não esperávamos depois de tantos anos de formação: a eleição de Jair Messias Bolsonaro. Desta vez eu digo: ainda bem que o senhor não estava aqui para ver isso! O senhor acredita que ele defende a ditadura militar (sim, aquela que prendeu e exilou o senhor!). E não só defende, como o fez diversas vezes dentro de instituições democráticas, como a Câmara dos Deputados e a própria Presidência da República. No dia da votação no processo de impeachment da Dilma na Câmara, por exemplo, Jair votou a favor do golpe homenageando um militar reconhecido pela Justiça Brasileira como torturador durante a ditadura.

O que mais impressiona nesta história é o fato de um deputado defender um torturador em uma sessão pública e não sofrer nenhum tipo de punição; pelo contrário, ganhar ainda mais visibilidade e ser eleito para atuar nas instituições democráticas que ele mesmo ataca. A verdade é que aparentemente o Brasil não tem mais instituições...

Mas preciso ser justa: antes do golpe de 2016 e da eleição de 2018 estava tudo perfeito e maravilhoso? Não. O próprio Partido dos Trabalhadores publicou uma resolução reconhecendo parte dos erros ocorridos em sua gestão , como o pacto pluriclassista que permitiu a eleição de Dilma e, anteriormente, a eleição e a reeleição de Lula. 

É certo que ainda tínhamos muito o que avançar, mas não imaginávamos retroceder.

A (in)consequência: universidades públicas sem verba, bolsas cortadas, apagão no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) , docentes sofrendo perseguição (se falar no nome do senhor então, é capaz de sofrer violência física!). Acervo do Movimento Negro sendo descartado pelo próprio Instituto Palmares! Terreiros sendo depredados, violência policial cada vez mais aguda. Florestas queimando. Sucateamento, livros sendo (mais) taxados. Notícias falsas. Pobreza. Fome. Genocídio (estamos atravessando uma pandemia causada por um vírus respiratório e, acredite, o desgoverno pediu propina em cima de vacina).

O Colégio Pedro II, escola pública de qualidade onde estudei, anunciou que pode fechar as portas este mês por falta de verbas . A Universidade Federal de Santa Catarina, onde fiz a Graduação e o Mestrado, informou que há risco de suspender projetos de extensão e de pesquisa e também o pagamento da folha salarial de funcionários.

Não é à toa que esses dias foi publicada uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas dizendo que quase metade das pessoas jovens brasileiras entre 15 e 29 anos querem deixar o Brasil . Nos falta esperança... O senhor entende, não é? Às vezes a gente pensa até em desistir...

Mas, como diria Gil do Vigor, um doutorando contemporâneo meu e conterrâneo seu, 

— “eu não vim do lixo pra perder pra basculho não”! 

Eu estou indignada! Mas nós temos a sina de esperançar. 

Nos recusamos a parar depois de chegar tão longe. Devemos isso ao senhor! Devemos isso a todas as pessoas que lutaram para garantir os direitos e as políticas educacionais que nós fizemos usufruir. Devemos isso às mulheres deste país, às trabalhadoras e aos trabalhadores, à população negra, à população indígena, aos Movimentos Sociais e a todas as pessoas que transformaram sua indignação em luta por emancipação. 

Mesmo que existam razões para perder a esperança e que pareça que nós jovens nos preparamos para um futuro que nunca chegará, escrevo esta carta para firmar o meu compromisso com o senhor e com todas as pessoas que acreditam que a educação nos transforma e que nós transformamos o mundo. Faço isso com, por e para todas as pessoas que sentem as violências cotidianas do machismo, do racismo, da pobreza e da falta de acesso a direitos básicos, mas que vivenciaram uma transformação em suas vidas e nas vidas de suas famílias pela educação.

Queremos que mais pessoas vivenciem isso! Fomos as primeiras e os primeiros de nossas famílias a entrar em espaços que antes não nos recebiam, mas não queremos ser as últimas e os últimos. Aliás, não queremos apenas entrar, queremos ser convidadas e convidados, queremos manter as portas abertas para mais pessoas. Aprendi com o senhor que a educação é um direito. E vamos sim continuar a lutar por ele.

De minha parte (e sei que não estou sozinha), o senhor pode confiar que seguirei não somente buscando concluir diferentes etapas de minha formação institucional, mas tendo em mente que a formação se dá também na luta por emancipação . E, assim, seguimos na luta por uma educação democrática, que se indigna e se compromete em lutar contra qualquer forma de discriminação, de injustiça e de desigualdade. Tenho certeza de que, se o senhor ainda estivesse aqui em carne, estaria se somando a esta luta conosco e completando 100 anos de compromisso. 

Seguimos por aqui, tendo o senhor vivo em nossa lembrança e nos dando força para lutar. Para esperançar.

Feliz aniversário!

Um cumprimento de cotovelo (agora é assim, desculpa; queria mesmo é lhe dar um abraço, mas ainda não estou completamente vacinada!).

Com carinho, indignação, compromisso e esperança, 

Professora Jéssica.

Comentários

  1. Há muito não leio uma carta tão bem escrita! Queria ver o sorriso do nosso Mestre lendo suas palavras.
    Obrigada querida!
    Se pudesse assinaria com você esta carta para confirmar que não está só.
    Obrigada! Beijos Freirianos.

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    1. Eu que agradeço pela leitura!
      Assinamos e seguimos juntas ♥

      Um abraço cheio de esperança!

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  2. Emocionantes, sinceras e verdadeiras palavras. Parabéns. Saiba que não está só, eu também estou com você.

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  3. Emocionantes, sinceras e verdadeiras palavras. Parabéns. Saiba que não está só, eu também estou com você.

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