Eu amo Copa do Mundo!
O clima amistoso, nossa bandeira sendo usada com um propósito legítimo, a emoção de cantar o hino...
Faço bolão, decoro os nomes de todos os jogadores, acompanho as estatísticas, juro que qualquer lance (em qualquer lugar do campo) é pênalti favorecendo o Brasil e que todo gol do time adversário estava impedido.
Este ano eu estava pronta para ter, mais uma vez, a dobradinha de 2002: Lula Eleito e Brasil Campeão. Infelizmente não deu, mas paciência! Não vou sofrer por macho comedor de carne de ouro, nem por sonegador de imposto fã de fascistinha.
O gol do Richarlison no primeiro jogo já foi o suficiente para me fazer reconciliar com as cores verde e amarelo - e me consola também esperar que o troféu venha em 2026 e seja entregue pela mãos do nosso ex e futuro presidente.
Mas este ano estou acompanhando a Copa de um jeito diferente. Não vejo as ruas pintadas e com bandeirinhas. Tá frio. Não tem ninguém apostando caixa de cerveja, nem fazendo churrasco.
As poucas movimentações que vi até agora foram das outras pessoas brasileiras (óbvio!) que estão por aqui sofrendo juntas, e da comunidade marroquina que vibra a cada vitória - e a quem me junto agora na torcida.
A estrangeirice que me acompanha me faz olhar para a enorme quantidade de jogadores negros defendendo as camisas de seleções europeias e pensar nos caminhos que percorreram para chegar até ali.
Quantas histórias carregam essa gente que vem pelo mar?
Grande Veleiro de Arthur Bispo do Rosário. Fonte: https://museubispodorosario.com.
Me pergunto quantas vezes eles já não tiveram suas nacionalidades questionadas - inclusive pela plateia branca que os observa enquanto erguem suas bandeiras das arquibancadas.
Imagino quantas vezes policiais já não solicitaram documentos a esses jovens, nos cruzos e vaivéns das linhas do trem, sob o pretexto de protegerem a soberania de seus países e o bem-estar de cidadãs e cidadãos, agora sim, ditos compatriotas.
Quantas vezes já tiveram o sentimento de não ser daqui.
E o é ser daqui, afinal?
O que é preciso para ter direito a cidadania?
Ter um registro? Pagar impostos? Respeitar as regras?
Acho que não.
Servir ao país?
Talvez.
Ou ser usado enquanto serve.
O futebol nos escancara muitos conflitos, para além da (igualmente válida) hesitação sobre o país sede da Copa deste ano. O que vale é o que fazemos com isso depois que o juiz apita.
Comemorar que um jogador negro fez um gol e acreditar, na mesma medida, que o Estado te protege de pessoas como ele não é só racismo e hipocrisia, mas também uma gigantesca falta de fairplay.

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