Do medo à esperança, é tudo Ismália

Esses dias tive aula com o Emicida. Ele mesmo, Leandro Oliveira, filho da Dona Jacira!

A emoção foi tanta que chegou a ser desesperador - como ele mesmo conta que foi seu primeiro encontro com Djavan. Com o afeto quase impedindo minha fala, só consegui agradecer

Mas tantas coisas passaram pelos meus pensamentos...

A primeira delas foi o medo

Aquele medo de nunca ser ou fazer o suficiente. Medo de que conquistas coletivas se reduzam a benefícios individuais. Medo de, como Ismália, querer tocar o céu, mas terminar no chão.


Ismália. Fonte: VALKIRIAS.



Medos que muitas pessoas conhecem, e tantas outras desconhecem. Como se o medo de umas alimentasse as ambições de outras...


Para umas, a felicidade plena. Para outras, o quase.


Mas, ao ouvi-lo, esse medo foi dando lugar à esperança!


E essa esperança eu não precisei roubar de ninguém.


Essa esperança foi compartilhada nos versos de Emicida, no triste canto alegre de Clara Nunes, na poesia de Nei Lopes. Na dança das Baianas da Império Serrano e no balancê de Zeca Pagodinho. No semba de Martinho da Vila, Mariene de Castro e Wilson das Neves.

Na indignação dos Racionais, nos quereres de Caetano Veloso e Milton Nascimento. Nos pedidos de Cidinho e Doca. No amor de Criolo.

Nas vozes-mulheres de Alcione e Teresa Cristina. No miudinho de Dona Ivone Lara! 

Na tropicalidade de Gilberto Gil e no baião-de-dois de Gonzagão e Gonzaguinha. Nas brechas cultivadas como manga e Mangueira verde-e-rosa em Fundo de Quintal. Na alvorada de Cartola.

Nas palavras brincadas de Manoel de Barros e Djavan. No cheiro dos livros desesperados de Maria Bethânia e Dona Canô. Nas andanças de Beth Carvalho e Elis Regina, nos sonhos de quem mora longe.

Na arte e na brasilidade que pulsam, existem, resistem e que dão certo.

Nos sonhos de quem não quer ser (ou ter!) só porque alguém é, mas que quer ser porque sabe que, só assim, é que somos.


Nos meus quereres, se fortalece a esperança de que se reduza o abismo entre nós e a humanidade plena. Mesmo sabendo que é tudo Ismália, sei também que o maior medo não é nosso, é de quem quer roubar nossa esperança e nosso esperançar. 


Mas vão ficar querendo! 

Porque “Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte”:


Onde queres patriarcado, 
somos “Ele não”
somos Marielle Franco
somos Elza Soares e Nilma Lino Gomes
Francia Márquez, Sonia Guajajara
somos Isabel Noronha
Dora Barrancos
somos feminismos e mulheridades

Onde queres capitalismo,
somos solidariedade
somos bem-viver

Onde queres colonialismo,
somos liberdade
somos de, somos des, somos pós, somos anti
somos contra-hegemonia e insurgência

Onde queres dualismo,
somos pluralidade e diferença 
somos diversidade

Onde queres rigidez,
somos dança
vento e ventania

Onde queres neutralidade,
somos luta e posicionamento
somos gritos
somos engajamento, comprometimento

Onde queres positivismo,
somos paixão

Onde queres racionalismo,
somos muitas racionalidades
somos saberes e potências

Onde queres tirania,
somos arte, poesia
utopia!
somos Camilo Sousa
somos resistência

Onde queres escrito,
somos escrito, falado, cantado
somos corpo, oralidade e circularidade
somos cante-gitano

Onde queres epistemicídio,
somos existência
somos constelações de saberes, rizomas
somos sabedoria e ancestralidade
somos memória

Onde queres regulação,
somos emancipação, rebeldia
somos Emicida 
somos teimosia

Onde queres exclusão,
somos integração 
somos direitos, somos humanos

Onde queres destruição,
somos natureza e cuidado
somos vida!

Onde queres ser porque pensas,
eu sou porque nós somos

Onde queres medo, 
somos esperança.

Comentários

  1. Belo texto! Palavras de esperança colocadas em um formato que nos leva a caminhar no tempo e a nos reconhecer no espaço. Obrigado pelas suas escritas!

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  2. Eu que agradeço pela leitura e pelas doces palavras 💛🌻

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  3. Mais una lindeza de texto! Emocionada aqui com o tanto de povo, samba e Brasil em teu escrever.

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  4. Belo texto que nos alimenta a alma de esperença!

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