Sangrando

Crescer no meio da pobreza e da violência mexe com a gente. E mexe de tal forma que, mesmo que você não viva mais em um ambiente miserável e violento, você sente que aquilo sempre vai fazer parte de você.

Eu fui criada assim e até hoje carrego consequências disso em minha personalidade. A mais evidente delas talvez seja a de que eu quase não falo.

Falar é tão difícil pra mim, que eu tenho que escrever. Escrever é meu domínio sobre o mundo, sobre a minha própria existência.

Coisa estranha é essa sensação... Ela me faz calar, mas também me faz querer ser ouvida. E por isso escrevo. Porque quando escrevo, é como se eu estivesse gritando.


"Coração na boca, peito aberto, vou sangrando" 


Esta semana vi três pessoas sangrarem também. Uma, em silêncio. Tinha apenas 11 anos. A outra foi sua mãe, e a terceira, Dona Janete.

Sinto vontade de gritar de novo ao lembrar do que vi e ouvi.

A imagem daquela menina com um crucifixo pesando sobre sua cabeça não sai de mim. Entrou no meu corpo, faz parte de mim agora.

As palavras que ela não disse gritam tão alto quanto a cruz do conservadorismo, do racismo, da misoginia. Tão alto quanto a crueldade das mulheres sentadas a sua frente, que deixaram bem claro que o sofrimento daquela menina negra não tinha a menor importância diante da felicidade que uma família branca poderia ter.


Fonte: Petit Abel.


E então vamos para sua mãe. Essa gritou! E gritou porque sabia que não seria ouvida. Quando ela abriu sua garganta, com essa força tanta, tudo que eu ouvia era: 


– Cara mulher branca a quem eu devo respeito, mas que não se importa com a vida da minha filha, nem com a vida de ninguém semelhante a nós, 
eu sei que é você quem manda, aprendi isso a minha vida toda.
Eu sei que você não vai deixar minha filha fazer o aborto a que ela tem direito.
Eu já entendi isso. 
Eu sei que, pra você, ela é só uma incubadora de bebês.
Eu sei disso tudo.
Mas, por favor, por favor!, deixa eu pelo menos ficar perto da minha filha. 
Porque eu sei que ela pode não resistir a esse processo.
Eu sei que ela pode não voltar pra casa.
Eu sei que você não se importa.
Eu sei.


Dona Janete também entendia o que estava acontecendo na sua vida. Soltou sua voz e contou que não tinha nada em casa para alimentar sua família. Chorou e o sal sequer molhava seu sorriso. Sangrou. Sangramos.

Penso em quanto deve ter sido difícil para essas mulheres falarem, se exporem dessa forma. Se entregarem, palavra por palavra.

Romperem com a violência da coação, da fome, da miséria, do desprezo. (Por sorte, Dona Janete teve ao menos a escuta atenta e sensível da repórter Lívia, que sangrou junto com ela!)

E o quanto deve ter sido doloroso para aquela menina, uma criança!, passar por tanta violência gritando em silêncio.

Mais uma vez, morremos um pouquinho. E está cada vez mais difícil nascer de novo. Talvez hoje não dê. Não consigo. Não consigo mais escrever. Nem consigo mais sangrar. Só consigo dar um último grito: basta! 

Tem gente morrendo. Tem gente com fome. Tem gente sendo violentada. Tem gente sendo violada. Tem gente sangrando.


Por hoje, que o canto de Gonzaguinha seja nossa força pra cantar, porque amanhã, como aprendemos também com ele, vamos à luta! 



---

Se você não entendeu sobre o que estou falando neste texto, você precisa se informar, se indignar e agir!

1) Petição pelo afastamento da juíza de SC que, em audiência, induz menina de 11 anos grávida após estupro a desistir de aborto legal.

2) Na luta para ter o que comer, mulher chora em entrevista ao vivo e leva repórter às lágrimas.


Comentários

  1. Querida Jéssica, estamos todas sangrando nesse tempo de tantas violências! Perco o sono, o riso, engulo o choro e miro outras tantas de nós. Me fortaleço nós olhares, abraços e gritos co tra tanta injustiça. Estamos juntas. Te amo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prof querida! Que sorte a minha ter mulheres como a senhora por perto, que riem e choram por mim, comigo e com tantas outras. O teu canto é minha força pra cantar! Estamos juntas! Te amo 🌻

      Excluir
  2. Muito bacana o texto, Jessica! Você escreve muito bem, tem o olhar sensível e humano.

    Ainda fala na música do Gonzaguinha, que eu amo, graças aos meus pais. Haha!

    Brigada pela citação ;-)

    Beijo grande!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Lívia, eu que agradeço pela leitura!
      Seu pai também influenciou muito meu gosto musical! hehehe

      Um abraço pra vocês 💜

      Excluir

Postar um comentário