Meu samba é de vida e não de morte

Hoje é dia do samba!

É dia de colocar Cartola e Beth Carvalho pra tocar e ir batucando miudinho na mesa até a hora do refrão – que só se sente de verdade colocando uma mão no peito e o outro braço pra cima.

Este ano, em particular, é tempo também de ver uma profusão de especialistas em racismo segurança sanitária.

Gente que pouco se importou com a pandemia até aqui, que anda pra cima e pra baixo com a máscara no queixo (sério, gente, por quê?), mas que agora, com a proximidade do Carnaval, passa a se preocupar com a contaminação pelo corona vírus.

Barzinho pra ver Flamengo x Palmeiras na final da Libertadores? Tranquilo.

Estádios com torcida nos jogos do Brasileirão? Não dá nada.

Motociata tirando máscara de criança? De boa!

Igreja? Shows? Shopping? Suave.

Só o que mata mesmo é o Carnaval. 

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Só o que mata mesmo é o racismo.

Quem, feliz ou infelizmente, tem memória boa neste país se lembra das terríveis associações entre a pandemia de COVID-19 e os desfiles das escolas de samba.


Jesus da gente. Fonte: Marcos Serra Lima/G1.


Segundo algumas pessoas (e robôs), a pandemia foi uma resposta divina à desobediência e aos atos pecaminosos feitos no Carnaval.

Olha, se esse deus foi capaz de mandar um vírus matar mais de 5 milhões de pessoas no mundo por causa de uma fantasia, deus me livre desse deus! Não me leve a mal, mas prefiro ficar com a Mangueira:

"Pecado é não brincar o Carnaval!"¹

O samba nasce da dor, mas não combina com a morte.

Em setembro do ano passado, já com o vírus e o projeto de genocídio instalados no Brasil, as escolas de samba do Rio de Janeiro, de forma unânime, decidiram adiar os desfiles de 2021 para o mês de julho, na esperança de que até lá haveria vacina e a pandemia estaria controlada.

Já em janeiro deste ano, ao se darem conta de estávamos bem longe de voltar à normalidade, cancelaram definitivamente o desfile.

As escolas de samba cumpriram seu papel social e agiram com responsabilidade, mesmo que isso tenha causado prejuízos inimagináveis. Mesmo antes das decisões das prefeituras, se posicionaram firmemente contra a realização dos desfiles sem a vacinação em massa da população.

Enquanto trabalhadoras e trabalhadores do samba tiveram que interromper suas atividades – e, portanto, ter sua renda prejudicada – , sobraram flagrantes de festas clandestinas em clubes e casas de luxo.

Só que essas aglomerações não incomodam. Só incomoda se tocar samba ou funk. E o que o samba e o funk têm em comum? São cultura negra, de periferia.

Não estou dizendo que sou a favor de baile funk ou roda de samba no meio da pandemia, o que me preocupa é essa indignação seletiva

Pra ser contra o Carnaval e ser minimamente coerente, também ter que ser contra a festa de Ano Novo, a confraternização de Natal, o churrasco com a rapaziada, ... E tem que parar de achar que tá tudo bem em tirar a máscara para tirar foto, falar e tossir.

Agora, naturalmente, as agremiações retomam suas atividades e projetam o Carnaval do próximo ano. Com certeza a festa não vai ser a mesma. Nós não somos mais as mesmas pessoas. 

Se vamos conseguir celebrar a vida em fevereiro ou se vamos ter que esperar um pouco mais, confio e "deixo entregue aos bambas de verdade, que estão nos morros da cidade" e só "peço a benção pra passar"...


O meu samba vai curar teu abandono
O meu samba vai te acordar do sono
Meu samba não quer ver você tão triste
Meu samba vai curar a dor que existe
Meu samba vai fazer ela dançar
É o samba certo pra você cantar

O meu samba é de vida e não de morte
Meu samba, vem pra cá e traz a sorte
E celebra tudo o que é bonito
Meu samba não despreza o esquisito
Meu samba vai tocar no infinito
Meu samba é de bossa e não de grito

Meu samba defendi com alegria
Deixe que a noite vadia
Vai saber lhe coroar
Deixo entregue aos bambas de verdade
Que estão nos morros da cidade
Peço a benção pra passar ²



¹ Trecho do Samba-Enredo de 2018 da Estação Primeira de Mangueira (RJ).

² Samba Meu, de Rodrigo Bittencourt.


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