Já faz um tempo que Kathlen Romeu e seu bebê foram assassinados pela polícia do Rio de Janeiro, mas só agora consigo colocar em palavras o que senti.
Acontece que naquele dia eu também morri.
Kathlen fez tudo certo. Estudou, se formou, conseguiu um bom emprego, juntou uma graninha pra sair da favela, encontrou um cara bacana, engravidou.
Tudo nos conformes. Tudo que a gente que nasce fudido sabe que tem que fazer pra ter direito ao mínimo de dignidade.
A mãe e o pai da Kathlen já sabiam disso e tinham feito o mesmo: se formaram, trabalharam, conseguiram se mudar da favela porque queriam proteger a filha da violência.
Acontece que, por mais que a gente faça, infelizmente, não consegue levar todo mundo com a gente. A gente consegue dar orgulho e até algum conforto – nem que seja simbólico – mas sabemos que ainda vamos precisar de muito, muito tempo (mais algumas gerações!) pra ter condições de ver todo mundo vivendo com tranquilidade.
E sabemos que quem fica foi essencial para nossa partida.
Foi por isso que, naquele 8 de junho de 2021, Kathlen foi visitar sua avó, que ainda morava no Complexo do Lins, de onde tinha se mudado com sua mãe e seu pai fazia um mês e meio.
Com duas gerações fazendo tudo certo, conseguiram viver o sonho de uma vida tranquila por apenas um mês e meio.
No mesmo dia em que Kathlen foi atingida, eu estava visitando minha avó na favela do Jorge Turco, no Rio de Janeiro, onde vivi até os 18 anos.
Fiz o mesmo que Kathlen. Estudei, me formei, me mudei, casei. E fui visitar minha avó.
Grávida de futuro, ao saber de Kathlen, me dei conta da minha existência, morri e vivi pela primeira vez de novo.
— "Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou" ¹.
Já nasci outras vezes. Uma delas foi quando meu cunhado me contou a história de um rei que, por ter vindo do nada, não sabia usar bem seus poderes e acabou colocando fogo no seu próprio reino.
E o que sou?
Sou favelada ou moradora de um bairro de classe média? Estudante de doutorado ou integrante de uma família sem estudo? Não importa. Eu sou.
No momento da minha morte, só conseguia pensar em quanto ela faz parte da nossa vida.
Poderia ser a favelada sem estudo? Poderia. Poderia ser a estudante de doutorado moradora de bairro de classe média? Poderia também.
Poderia ser a favelada sem estudo? Poderia. Poderia ser a estudante de doutorado moradora de bairro de classe média? Poderia também.
Porque o plano de nos matar não encerra quando fazemos tudo certo. Afinal, o que é o certo? Será que fazia parte do plano a gente fazer tudo isso? Será que fazia parte do plano a gente não esperar morrer pra saber que viveu?
Eu sou tudo isso: favelada e moradora da Trindade, doutoranda e a primeira da família a entrar na universidade. Essas coisas vão seguir comigo pra sempre, aonde quer que eu vá.
Pode parecer uma punição, né? Mas eu vejo como uma responsabilidade, um compromisso. De que adianta estudar, trabalhar e se mudar se não conseguimos transformar a realidade? Talvez o certo seja este: lutar, morrer, nascer de novo, lutar – nem que seja através de outras pessoas.
Kathlen e sua família lutaram e seguem lutando. E esta luta deveria ser de todas e todos nós. Quem não morreu aquele dia com Kathlen e seu bebê já tinha morrido e não sabia.
Quanto ao futuro, retomo a música que acompanha minha existência, desde que me dei conta dela: eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci. De novo.
¹ Frase dita por Macabéa, personagem de Clarice Lispector em "A hora da estrela", que, ao morrer, se dá conta de que aquele era o primeiro dia da sua vida.

Lindo!
ResponderExcluirLinda!
ExcluirObrigada pela leitura 💜
Muito bom! Seis textos são bem escritos e honestos! Obrigada.
ResponderExcluirEu que agradeço pela leitura! 🌻💛
Excluir“ Quem não morreu aquele dia já tinha morrido e não sabia!” É isso! Parabéns pelo texto, Jéssica!
ResponderExcluirObrigada pela leitura, Eduarda! Seguimos!
ExcluirPerfeito texto, incrível.
ResponderExcluirObrigada pela leitura, Diogo! 💛
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